Uma propaganda eleitoral protagonizada pelo prefeito de Cuiabá, Abilio Brunini, pelo candidato ao Senado José Medeiros e pela candidata a deputada estadual Samantha do Abilio chama atenção pela linguagem escolhida para retratar a disputa política em Mato Grosso. No próprio encerramento, a peça atribui a Abilio a “direção” da produção.
Com estética de desenho animado e referências a filmes de ação e super-heróis, a propaganda transforma a eleição em uma espécie de batalha entre “mocinhos” e “vilões”. Há armadilhas, raios, inimigos e “traidores”, além de ataques a adversários e até a Janaína Riva (MDB), que disputa o Senado pela mesma coligação de Medeiros.
Logo nos primeiros segundos, o narrador anuncia que os personagens estão chegando para “vencer mais uma grande batalha contra o mal”. Na sequência, Medeiros é chamado de “Zé do Bolsonaro”, enquanto Abilio é apresentado como “o malvado favorito do Brasil”.
A partir daí, Abilio, Medeiros e Samantha aparecem como integrantes de uma espécie de equipe destinada a enfrentar aqueles que a própria narrativa coloca no campo adversário.
ABILIO APARECE COMO “DIRETOR”
Um detalhe importante aparece justamente no encerramento.
Depois de apresentar José Medeiros e Samantha do Abilio como os candidatos protagonistas da história, a propaganda credita: “Direção, Abilio Brunini”, seguido da descrição “o careca mais odiado do Brasil pela esquerda”.
Dentro da própria linguagem cinematográfica adotada pelo vídeo, portanto, Abilio não aparece apenas como um dos personagens. Ele também é apresentado como responsável pela “direção”.
O crédito ganha relevância diante do formato escolhido para a peça, marcado pelo confronto, pelo humor, pelas caricaturas e pela divisão dos personagens entre aliados e inimigos.
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ELEIÇÃO VIRA UMA “BATALHA CONTRA O MAL”
Um dos aspectos mais marcantes é justamente a maneira extremamente simplificada pela qual a disputa política é apresentada.
Em vez de uma exposição convencional de propostas, projetos ou diferenças entre candidaturas, entram em cena esconderijos, armadilhas, raios, vilões e comandos especiais como “ativar o modo cutia” e “ativar modo democracia”.
Expressões como “batalha contra o mal”, “dupla mais temida pelos vilões”, “togado das trevas”, “quadrilha” e “derrotar os traidores” aparecem durante a narrativa.
A estratégia pode tornar a mensagem mais simples, bem-humorada e compartilhável nas redes sociais. Ao mesmo tempo, levanta uma discussão sobre a infantilização da comunicação eleitoral ao reduzir uma disputa política complexa a uma história com lados claramente apresentados como bem e mal.
ATÉ ELEITORES SÃO TRANSFORMADOS POR “RAIO”
A maneira escolhida para representar os próprios eleitores também chama atenção.
Em determinado momento da animação, José Medeiros, chamado na peça de “Zé do Bolsonaro”, aparece disparando uma espécie de raio contra pessoas representadas como burros, inclusive com orelhas do animal.
Depois de atingidos, esses personagens deixam a aparência de burro e passam a ser retratados como pessoas usando camisetas amarelas — elemento visual que remete ao universo político representado pelos protagonistas da propaganda.
A sequência estabelece visualmente uma transformação: personagens inicialmente caracterizados como burros passam, após a intervenção de Medeiros, a integrar o lado apresentado positivamente pela própria animação.
Não é possível afirmar apenas pela cena que os responsáveis pela propaganda considerem literalmente eleitores de outro campo político “burros”. A escolha visual, porém, permite questionar qual mensagem é transmitida quando pessoas que ainda não estão do lado defendido pela peça são representadas dessa maneira antes de serem “transformadas”.
A cena se soma à estrutura presente durante praticamente todo o vídeo: existem os “mocinhos”, os “vilões”, os “traidores”, os poderes e uma batalha que precisa ser vencida.
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JANAÍNA VIRA ALVO MESMO ESTANDO NA MESMA COLIGAÇÃO
Outro momento politicamente relevante envolve Janaína Riva.
Na animação, a candidata ao Senado aparece presa em uma armadilha e posteriormente é atingida por uma espécie de raio ou arma fictícia.
O detalhe chama atenção porque Janaína e José Medeiros disputam o Senado pela mesma coligação, “Coração da Gente”.
Apesar da aliança formal, a convivência entre as duas candidaturas já registrou conflitos durante a campanha, inclusive em torno da divisão do horário eleitoral.
A representação de Janaína como alvo dentro de uma propaganda protagonizada por Medeiros evidencia como a disputa pelos votos ao Senado ultrapassou as fronteiras formais da própria aliança eleitoral.
O “TOGADO DAS TREVAS”
A propaganda também introduz um personagem chamado de “togado das trevas”.
Samantha afirma que ele “manda em tudo e ninguém tem coragem de desafiar”. Medeiros responde dizendo que o “togado” já o teria perseguido e acrescenta que, no ano seguinte, ele e sua “turma” vão acabar com as “festinhas dele”.
Em seguida, Abilio apresenta uma armadilha que, segundo o roteiro, serviria para capturar quem pretende ir para Brasília “ajudar a quadrilha do togado das trevas”.
A peça, portanto, não se limita à disputa estadual e incorpora à narrativa conflitos da política nacional e referências ao Judiciário.
POLARIZAÇÃO COMO ROTEIRO
A polarização aparece como um dos principais motores de toda a história.
Bolsonaro é mencionado diretamente, com Medeiros apresentado como “Zé do Bolsonaro”. A esquerda também aparece explicitamente no encerramento, quando Abilio recebe o crédito de diretor e é chamado de “o careca mais odiado do Brasil pela esquerda”.
A lógica utilizada ao longo do vídeo é semelhante à de uma produção de entretenimento: existem protagonistas, antagonistas, aliados, inimigos e personagens considerados “traidores”.
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No encerramento, José Medeiros é anunciado como “o candidato cutia que não tem rabo preso com ninguém”. Samantha do Abilio aparece como “a deputada estadual que realmente luta pela causa feminina”. E Abilio encerra os créditos justamente como responsável pela “direção”.
Esse último detalhe talvez seja um dos elementos mais simbólicos da produção.
Ao ser apresentado como “diretor”, Abilio ocupa, dentro do próprio roteiro, uma posição que vai além da de personagem: aparece como aquele que conduz a história apresentada ao eleitor.
E a história escolhida é clara: a eleição deixa de ser retratada prioritariamente como uma disputa entre diferentes propostas e passa a assumir a linguagem de uma batalha, com mocinhos, vilões, traidores, raios, armadilhas e inimigos a serem derrotados.
A estratégia pode funcionar como entretenimento e alcançar o eleitor de maneira diferente da propaganda tradicional. Mas também deixa uma questão sobre o modelo de comunicação adotado nesta campanha: transformar uma eleição em uma história de “bem contra o mal” aproxima a população da política ou simplifica e infantiliza um debate que deveria ser muito mais complexo?

