O último desfecho da disputa pelo tempo de propaganda veio do Supremo Tribunal Federal (STF). Em sede de Reclamação Constitucional, o Supremo determinou que o horário eleitoral gratuito da coligação Coração da Gente seja dividido igualmente entre Janaína Riva (MDB) e José Medeiros (PL), assegurando 50% do espaço para cada candidatura.
A decisão afastou a distribuição anterior, de aproximadamente 60% para Medeiros e 40% para Janaína, e determinou o cumprimento imediato da divisão igualitária.
A reclamação foi apresentada por Janaína e pelo Diretório Nacional do MDB após o Tribunal Regional Eleitoral de Mato Grosso (TRE-MT) negar o pedido de urgência para modificar a distribuição do tempo. O STF considerou que a divisão desigual contrariava o entendimento firmado pela Corte sobre a participação feminina nas eleições.
Politicamente, o episódio chama atenção porque se soma a uma sequência de disputas enfrentadas por Janaína para consolidar sua candidatura ao Senado.
Da Assembleia ao projeto nacional
Antes de chegar à campanha eleitoral de 2026, Janaína já havia protagonizado uma disputa significativa dentro da Assembleia Legislativa de Mato Grosso (ALMT).
Em 2024, depois de mais de um ano de articulações para assumir a Primeira-Secretaria da Casa, a parlamentar viu o cenário mudar com a entrada de Beto Dois a Um na disputa.
Diante da possibilidade de divisão interna, Janaína recuou. O MDB permaneceu com a Primeira-Secretaria, que acabou ocupada por Dr. João, enquanto ela ficou fora da composição da Mesa Diretora.
A situação ganhou peso simbólico porque Janaína era, naquele momento, a única mulher entre os 24 deputados estaduais.
Ela já havia feito história anteriormente ao se tornar a primeira mulher a ocupar a Vice-Presidência da Assembleia e, nessa condição, também a primeira a assumir interinamente a Presidência do Legislativo estadual.
Mesmo diante do desgaste, Janaína evitou uma ruptura política. Criticou interferências externas nas decisões da Assembleia, mas preservou pontes com colegas e integrantes do governo.
Essa característica voltaria a aparecer durante a construção de sua candidatura ao Senado.
Pressões para desistir do Senado
Durante as articulações eleitorais, Janaína foi apontada em diferentes momentos como possível candidata a vice-governadora.
Nos bastidores, aliados chegaram a defender que ela abandonasse a disputa pelo Senado para integrar outra composição majoritária. A deputada, entretanto, manteve publicamente sua decisão de concorrer a uma das duas vagas de Mato Grosso no Senado.
Pouco antes das convenções, o projeto chegou a ser tratado como isolado politicamente e com dificuldades para integrar uma chapa competitiva.
O MDB, porém, bancou a candidatura e concentrou parte importante de sua estratégia eleitoral no nome da parlamentar.
O desafio seguinte foi ainda mais complexo: construir uma aliança com o PL.
A composição enfrentou resistência dentro da própria legenda do ex-presidente Jair Bolsonaro. Medeiros tentou reverter o acordo junto à direção nacional e integrantes do partido chegaram a declarar publicamente apoio exclusivo ao candidato do PL.
A aliança foi mantida, mas Janaína e Medeiros chegaram à campanha conduzindo projetos com considerável autonomia. Foi dentro desse cenário que a divisão do tempo de propaganda chegou ao Judiciário e terminou com a decisão do STF assegurando espaços iguais aos dois candidatos.
Do agro aos servidores
Um dos elementos que ajudam a explicar a competitividade eleitoral de Janaína é sua capacidade de circular por setores que nem sempre ocupam o mesmo campo político.
Na discussão envolvendo a Moratória da Soja, por exemplo, a deputada participou de articulações no Supremo Tribunal Federal e no Senado e se posicionou ao lado de representantes do setor produtivo em defesa da legislação aprovada em Mato Grosso.
Em outra frente, manteve forte interlocução com servidores públicos estaduais.
Janaína defendeu a recomposição de perdas inflacionárias, cobrou passivos relacionados à Revisão Geral Anual (RGA) e atuou nas discussões envolvendo suspeitas de irregularidades em empréstimos consignados de servidores.
Essa amplitude provoca interpretações diferentes.
Críticos apontam que a atuação em grupos tão distintos dificulta estabelecer uma identidade política mais definida. Aliados enxergam justamente o contrário: consideram que a capacidade de conversar com diferentes setores é uma das principais características políticas da deputada.
Em uma eleição majoritária, na qual o candidato precisa conquistar votos em todas as regiões e diferentes segmentos sociais, essa capacidade de articulação pode se transformar em ativo eleitoral.
O peso do sobrenome Riva
Há, porém, uma questão que acompanha Janaína desde sua entrada na política: o sobrenome.
Filha do ex-deputado e ex-presidente da Assembleia Legislativa José Geraldo Riva, uma das figuras mais poderosas da história recente da política de Mato Grosso e alvo de investigações e condenações relacionadas a desvios de recursos públicos, Janaína convive desde a primeira eleição com comparações e questionamentos sobre a trajetória do pai.
A relação familiar faz parte de sua biografia, mas não significa transferência automática de responsabilidade pelos atos atribuídos ao ex-parlamentar.
Adversários argumentam que parte de sua estrutura política foi construída a partir do legado do pai. Seus aliados contrapõem essa narrativa apresentando o desempenho eleitoral conquistado pela própria deputada ao longo de três mandatos.
Eleita pela primeira vez em 2014, Janaína foi reeleita em 2018 e 2022. Nas duas últimas disputas, terminou como a candidata mais votada para a Assembleia Legislativa. Em 2022, recebeu 82.124 votos.
Depois de 12 anos de mandatos, a parlamentar chega à eleição de 2026 com uma trajetória suficientemente longa para que sua atuação também seja analisada por decisões, posicionamentos, acertos, erros e resultados próprios.
Nova pesquisa aponta empate técnico na liderança
O levantamento mais recente da Real Time Big Data colocou Janaína Riva em empate técnico com Mauro Mendes na liderança da disputa pelas duas vagas de Mato Grosso no Senado. No resultado consolidado do primeiro e do segundo votos, Mauro apareceu com 27% e Janaína com 26%.
A deputada também liderou isoladamente entre os eleitores que indicaram sua segunda escolha para o Senado, com 32%, contra 19% de Mauro. Na primeira opção de voto, o ex-governador registrou 36% e Janaína, 20%.
A diferença entre Janaína e o terceiro colocado é de 12 pontos. Carlos Fávaro apareceu com 14%, enquanto José Medeiros e Pedro Taques registraram 13% cada. A pesquisa ouviu 1.600 eleitores entre 29 de agosto e 3 de setembro, tem margem de erro de dois pontos percentuais e está registrada no TSE sob o número MT-07156/2026.
Embora adotem metodologias e formas de apresentação diferentes, outros levantamentos recentes, como Paraná Pesquisas e Quaest, também colocaram Mauro e Janaína nas duas primeiras posições. Os números são retratos do momento e não antecipam o resultado das urnas, mas confirmam que a deputada chega à fase decisiva da campanha efetivamente competitiva por uma das duas cadeiras em disputa.
Uma candidatura construída sob pressão
A disputa pelo tempo de propaganda foi mais um obstáculo de uma campanha que, até aqui, avançou justamente em meio às resistências. Desta vez, porém, Janaína conseguiu reverter no Supremo Tribunal Federal uma divisão que considerava desigual e garantiu metade do horário eleitoral da coligação.
Janaína ficou fora da Mesa Diretora da Assembleia quando buscava a Primeira-Secretaria. Resistiu às articulações para que abandonasse o Senado e disputasse outro cargo. Enfrentou oposição à aliança entre MDB e PL. Por fim, precisou recorrer ao STF para garantir espaço igualitário na propaganda eleitoral da coligação.
Nenhum desses episódios assegura uma vitória nas urnas.
Mas, juntos, ajudam a explicar a narrativa que começa a se formar em torno de sua candidatura: a de uma parlamentar que precisou disputar internamente boa parte dos espaços que hoje ocupa.
Para Janaína, o desafio das próximas semanas será transformar essa trajetória em voto e, ao mesmo tempo, ampliar sua presença para além dos grupos nos quais já possui força eleitoral.
Em outubro, Mato Grosso escolherá dois senadores. Até lá, a deputada terá pela frente a maior disputa de sua carreira política.
Se vencer, chegará ao Senado depois de uma campanha marcada por resistências, alianças improváveis e sucessivas disputas por espaço.
Se não vencer, a eleição de 2026 ainda assim terá consolidado Janaína Riva em um novo patamar da política estadual: não apenas como uma liderança feminina ou deputada de votação expressiva, mas como um nome capaz de disputar protagonismo em uma eleição majoritária em Mato Grosso.

