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Para o vice-presidente Oeste da Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja MT), Gilson Antunes de Melo, a lógica do sistema é simples e vem da própria natureza. “Numa floresta, as folhas das árvores vão caindo e formam uma camada sobre o solo. As sementes e os frutos caem no meio dessa palha, germinam e nascem plantas novas. O plantio direto é muito parecido. Você tem a palha, que é o resto da cultura anterior, não as partículas de solo e forma uma crosta na superfície, que dificulta a entrada da água. movimenta o solo e deposita a semente no meio dela, onde germina bem protegida”.
Na lavoura, a proteção começa já na chuva. Segundo o pesquisador André Somavilla, do Centro Tecnológico do Araguaia (CTECNO Araguaia), da entidade e do Instituto Mato-grossense do Agronegócio (Iagro MT), a palhada funciona como um escudo. “A gota de chuva não atinge diretamente o solo, e isso proporciona menor salpicamento de partículas, menor selamento superficial e menor desagregação da superfície. Sem essa proteção, a força da chuva solta”, explica.
O relevo levemente ondulado de muitas áreas agrícolas no estado de Mato Grosso também exige atenção. Nas áreas inclinadas e extensas, a água da chuva pode concentrar-se em pontos específicos da lavoura e haver escorrimento, o que aumenta o risco de carregamento de solo e formação de sulcos de erosão. “Quanto maior a declividade do terreno, menor a profundidade do perfil e menor a capacidade de infiltração de água desses solos, maior a propensão à perda de água e de solo pelos processos erosivos”, alerta Somavilla.
Depois das chuvas, a cobertura do solo reduz a evaporação e mantém a umidade por mais tempo, efeito que fica visível no início da safra. “Em áreas com palha, conseguimos seguir o plantio da soja por mais tempo depois da última chuva, em comparação com áreas sem palhada. As plantas demoram mais para sofrer estresse hídrico”, relata Somavilla.
Como o sol não incide diretamente sobre o solo, a superfície também aquece menos e a temperatura do solo fica mais estável. Isso reduz a perda de plantas jovens queimadas pelo calor, problema conhecido como escaldadura.
A umidade e a temperatura mais amenas ainda favorecem a nodulação da soja, a formação de pequenos nódulos nas raízes onde bactérias captam nitrogênio do ar e o repassam à planta. A palhada serve também de alimento para microrganismos e pequenos animais do solo, que a decompõem e liberam os nutrientes para as próximas lavouras.
No quesito manejo e conservação do solo e da água, a manutenção da palhada, o mínimo revolvimento e a rotação de culturas são fundamentais em todos os tipos de solos, desde Latossolos (solos profundos e bem drenados) à Cambissolos e Neossolos (solos menos profundos e com dificuldade de infiltração de água); desde solos arenosos (<15% de argila) à argilosos (>35% de argila) ou com alto teores de silte. Uma vez que processos erosivos, evaporação de água, variação de temperatura do solo e ciclagem de nutrientes são processos que ocorrem em todas as lavouras em maior ou menor intensidade.
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Solos arenosos – No Centro Tecnológico de Campo Novo do Parecis (CTECNO Parecis), o desafio é outro. Ali, os solos vão de 35% até 9% de argila, nos mais arenosos. De acordo com o pesquisador da Aprosoja MT e Iagro MT, Rodrigo Knevitz Hammerschmitt, quanto mais arenoso o solo, menos água ele retém. Também é menor a capacidade de reter nutrientes, conhecida como capacidade de troca de cátions (CTC).
Esses solos ainda acumulam menos matéria orgânica, porque os resíduos se decompõem rápido. Por isso, precisam ser cultivado frequentemente com culturas com alto aporte de palhada. Uma das estratégias é usar plantas de cobertura que produzem grande volume de massa vegetal, como as braquiárias, capins que protegem o solo e ajudam a acumular matéria orgânica aos poucos. Nesses solos, a palhada barra a radiação direta do sol e reduz a temperatura e a evaporação da água do solo. A matéria orgânica, por sua vez, ajuda a formar pequenos agregados que dão estrutura ao solo e facilitam a entrada da água. Ela também aumenta a capacidade de reter nutrientes, que ficam menos sujeitos a ser levados pela chuva para camadas profundas, fora do alcance das raízes. Esse conjunto faz diferença nos veranicos, períodos sem chuva em plena estação chuvosa. “Durante os veranicos, tudo isso ajuda a conservar a água disponível no solo por mais tempo, e as plantas conseguem suportar esses intervalos”, explica Hammerschmitt.
Sucessão soja e milho – Apesar dos benefícios, levar as plantas de cobertura para a lavoura esbarra na conta da safra. Em Mato Grosso, o sistema mais comum é a sucessão soja e milho: o produtor planta soja e, logo após a colheita, semeia o milho na mesma área. Assim, garante duas receitas no mesmo ano agrícola. Para Rodrigo, esse é o principal obstáculo. “Substituir o milho por uma planta de cobertura significa abrir mão de uma receita imediata, enquanto os benefícios para o solo e para a produtividade das culturas seguintes geralmente não são percebidos no curto e médio prazo”.
Ele pondera que, em solos arenosos, manter duas culturas comerciais todos os anos pode desgastar o solo ao longo do tempo. Isso acontece principalmente quando a área não recebe palha suficiente nem variedade de espécies. Nesses casos, segundo o pesquisador, incluir ao menos um cultivo anual de planta de cobertura pode ser a estratégia mais adequada para preservar o solo e manter a produção estável. O que tem ajudado a convencer o produtor são as pesquisas de longa duração, que acompanham o resultado do sistema ao longo dos anos, e não apenas o lucro de uma safra isolada.
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No CTECNO Parecis, um estudo de rotação de culturas teve avaliação econômica feita em parceria com o Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (IMEA). Ao longo de seis safras em solos arenosos, a sucessão soja e braquiária foi a mais rentável, mesmo com apenas uma cultura comercial por ano.
Hammerschmitt ressalta que a sucessão soja e milho também deu lucro no período. “Mas, nessas condições, a soja com braquiária foi mais eficiente, além de preservar mais o solo, aumentar a matéria orgânica e manter a estabilidade e rentabilidade produtiva”.
Gilson Antunes de Melo lembra que, além de proteger o solo, o sistema pesa menos no bolso do produtor, porque reduz o uso de máquinas na lavoura. “Cada vez que você coloca um trator na lavoura, está gastando diesel, mão-de-obra e manutenção, e tudo isso fica mais caro a cada dia. O revolvimento do solo é uma operação pesada, com consumo muito alto de diesel e de horas trabalhadas. No plantio direto, o produtor não tem essa etapa, só precisa ir lá e plantar, e isso reduz muito o custo de produção”.
Marianne Mariano
Assessoria de Comunicação
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