“Vamos lá buscar uma arma pra vender”. A frase atribuída à pastora Orminda Carlos de Barcelos Almeida aparece entre os elementos usados pela Polícia Civil e pelo Grupo de Atuação Especial contra o Crime Organizado (Gaeco) para sustentar que a matriarca da família Barcelos teria desempenhado um papel ativo na estrutura investigada pela Operação Fariseus.
Mãe de Rhavenna Barcelos, principal alvo da operação, Orminda é descrita na denúncia como uma personagem mais discreta, mas que teria funcionado como elo entre integrantes do Comando Vermelho presos e membros da organização em liberdade. Segundo a acusação, ela intermediava contatos, recebia e guardava valores, transmitia mensagens e mantinha proximidade com algumas das principais lideranças da facção em Mato Grosso.
O material reunido durante a investigação inclui mensagens, cartas e fotografias. Em um dos registros, Orminda teria avisado à filha que iria com o marido até um sítio buscar uma arma de fogo para posteriormente vendê-la.
Em outro momento, a própria pastora demonstra incômodo com aquilo que a família estaria fazendo e lamenta que eles estivessem fazendo “o que Deus não queria”.
A resposta atribuída a Rhavenna resume um dos diálogos que mais chamaram atenção durante a investigação: “somos uma família suja”.
Gaeco aponta função de Orminda dentro do grupo
A denúncia contra integrantes da família Barcelos foi ajuizada no último dia 11 pelo promotor de Justiça João Batista de Oliveira.
Embora Rhavenna seja apontada como a principal investigada da Operação Fariseus, a acusação dedica parte dos elementos reunidos à atuação de sua mãe.
Para o Gaeco, a postura aparentemente mais reservada de Orminda não significaria participação menor no esquema investigado. “Em que pese mantenha uma conduta mais discreta, os diálogos revelaram sua função dentro do grupo criminoso, onde realiza as intermediações entre faccionados presos e soltos, além da lavagem de dinheiro”, afirma trecho da denúncia.
A partir das conversas interceptadas, os investigadores passaram a reconstruir uma sequência de episódios que, segundo a acusação, mostraria Orminda circulando entre diferentes personagens ligados ao Comando Vermelho.
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“Vamos lá buscar uma arma pra vender”
Um dos episódios mais graves atribuídos à pastora envolve armas de fogo.
A investigação afirma ter encontrado imagens de Orminda na posse de armas que estariam relacionadas à organização criminosa.
Além das fotografias, uma mensagem enviada por ela à filha passou a integrar o conjunto de elementos apresentados pelas autoridades.
No diálogo, Orminda afirma que iria com o marido até um sítio para buscar uma arma que posteriormente seria comercializada.
O marido era o pastor Nivaldo de Almeida, pai de Rhavenna, que morreu na semana passada vítima de câncer.
Nivaldo também aparece no material investigativo. Em uma fotografia citada pelas autoridades, ele surge segurando uma arma e fazendo um gesto associado ao Comando Vermelho.
Os registros são utilizados pela acusação para sustentar que a relação investigada com a facção não estaria concentrada exclusivamente em Rhavenna, mas alcançaria o núcleo familiar.
Presos chamavam pastora de “mãe”
A proximidade de Orminda com integrantes encarcerados do Comando Vermelho também aparece em cartas encontradas durante a investigação.
Segundo a Polícia Civil, três presos identificados como Júlio, Júnior e Escobar se referiam à pastora como “mãe”.
Nas correspondências, eles teriam pedido que Orminda guardasse valores e levasse determinados itens para eles dentro do presídio.
Para os investigadores, o tratamento dispensado à pastora e o conteúdo dos pedidos ajudam a dimensionar o grau de confiança que alguns detentos teriam depositado nela.
A acusação sustenta que Orminda não seria apenas alguém conhecida pelos presos, mas uma pessoa utilizada para auxiliar em demandas de integrantes da organização que estavam dentro do sistema penitenciário.
Dinheiro teria sido dividido entre Orminda, filha e terceira pessoa
As interceptações também apontam para movimentação de dinheiro.
Em julho de 2024, Rhavenna pergunta à mãe: “o menino entregou o dinheiro pra senhora?”.
Orminda confirma.
Segundo a interpretação apresentada pela investigação, o dinheiro seria posteriormente dividido entre mãe, filha e uma terceira pessoa identificada como “Lolo”.
O episódio é utilizado pela acusação como mais um indício de que Orminda teria recebido ou guardado valores relacionados aos presos.
A denúncia ainda associa a matriarca a supostas práticas de lavagem de dinheiro, embora a responsabilidade por essas acusações ainda dependa da análise judicial do conjunto probatório.
Orminda sabia quando presos estavam “sem telefone”, diz investigação
Outro conjunto de mensagens chamou atenção dos investigadores pela aparente familiaridade da pastora com a rotina de comunicação de integrantes da facção presos.
Em abril de 2024, Rhavenna tenta falar por telefone com um detento.
É Orminda quem informa que eles estariam “sem telefone”.
Para a investigação, a conversa seria um indício de que a pastora conhecia os canais clandestinos de comunicação utilizados pelos integrantes encarcerados.
No mês seguinte, Rhavenna pergunta à mãe pelo número de Jonas, conhecido como “Batman”. Orminda diz que não possui o telefone.
Logo depois, porém, a própria matriarca pergunta à filha: “cadê o Renildo?”.
Rhavenna responde que ele estaria “desativado”.
Renildo é Renildo Silva Rios, conhecido pelos apelidos de “Zoio” ou “Velhote”, apontado pelas autoridades como fundador do Comando Vermelho em Mato Grosso. Ele também é apontado como namorado de Rhavenna.
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Pastora teria mantido contato com “Batman”
Jonas, o “Batman”, volta a aparecer em outros diálogos envolvendo diretamente Orminda.
Entre os dias 27 e 28 de setembro de 2024, a pastora teria avisado à filha que “Batman” havia saído do presídio e solicitado que Rhavenna entrasse em contato com ele.
Orminda informa, na sequência, que ela própria já havia falado com o homem.
No dia seguinte, Rhavenna envia a mensagem “já tirarão” e encaminha uma fotografia de “Batman” foragido.
Na avaliação dos investigadores, a sequência indicaria que mãe e filha tinham informações sobre a movimentação do integrante da facção.
A Polícia Civil também encontrou conversas de janeiro de 2025 que, conforme a investigação, indicariam que Orminda esteve na residência de Jonas.
Esses episódios são utilizados para reforçar a tese de que o contato da matriarca com integrantes do Comando Vermelho teria sido recorrente.
Recado de fundador da facção teria passado pelas mãos de Orminda
O papel de intermediária atribuído a Orminda aparece novamente em dezembro de 2024.
Segundo a investigação, no dia 6 daquele mês, a pastora teria repassado à filha uma mensagem de Renildo Silva Rios.
O pedido era para que Rhavenna “vigiasse o morro” para ele.
Naquele momento, Rhavenna estava no Rio de Janeiro. No dia anterior, ela havia informado à mãe que se encontrava na casa de “Batman”, que estaria foragido em uma região sob domínio do Comando Vermelho.
Para a acusação, o episódio mostra Orminda funcionando justamente da maneira descrita pelo Gaeco: como intermediária na circulação de mensagens entre pessoas ligadas à organização.
“Sandro Louco” também surge nas conversas da família
A investigação aponta que as conexões atribuídas à matriarca alcançariam personagens de alto escalão da facção em Mato Grosso.
Em fevereiro de 2026, Rhavenna teria entrado em contato com a mãe e pedido que ela chamasse Nivaldo para que fossem visitar “Sandro Louco”.
Ele é apontado pelas autoridades como uma das principais lideranças do Comando Vermelho em Mato Grosso.
A menção se soma aos contatos atribuídos à família com “Batman” e Renildo “Zoio” ou “Velhote”.
Para os investigadores, a recorrência desses nomes nas conversas é relevante porque demonstra que as relações investigadas alcançariam diferentes lideranças da organização criminosa.
“Fazer o que Deus não queria”
Em meio às conversas sobre dinheiro, presos, armas e integrantes da facção, uma manifestação atribuída à própria Orminda chamou atenção dos agentes.
A pastora teria lamentado para Rhavenna que a família estava fazendo “o que Deus não queria”.
A filha então responde: “somos uma família suja”.
O diálogo passou a integrar o conjunto de elementos utilizados pela investigação para contextualizar o grau de conhecimento que mãe e filha teriam sobre as atividades atribuídas ao núcleo familiar.
Orminda, segundo a acusação, ocupava uma posição paradoxal dentro do grupo investigado: era pastora e tratada como “mãe” por presos, ao mesmo tempo em que teria intermediado contatos e valores e aparecido em conversas relacionadas à comercialização de armas.
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Projeto religioso colocou família na mira
A Operação Fariseus foi deflagrada em 16 de julho e tem Rhavenna como principal alvo.
A investigação sustenta que um serviço social ligado à igreja frequentada por ela, chamado Equipe Evangelismo Resgatando Vidas, teria sido utilizado para facilitar atividades em benefício de integrantes do Comando Vermelho.
Segundo a Polícia Civil, o projeto teria servido para levar celulares à Penitenciária Central do Estado (PCE), em Cuiabá, e estabelecer uma ponte entre criminosos presos e pessoas que estavam fora do sistema penitenciário.
As autoridades também investigam o transporte de objetos, valores, mensagens e ordens.
Foi a partir do aprofundamento dessas apurações que os pais de Rhavenna também passaram a ocupar posição de destaque na investigação.
Orminda e Nivaldo foram alvos de buscas e apreensões, e os diálogos posteriormente reunidos pela polícia passaram a embasar as acusações sobre a participação da matriarca.
Matriarca virou personagem central da denúncia
Além de Rhavenna e dos pais, outros familiares e pessoas próximas foram incluídos nas apurações, entre eles Rhuan Barcelos, Anatany Barcelos, Jéssi Mariane Araújo dos Anjos, Karolina Lopes Padilha, Wiara Lima Cadore e Lais Barbosa Lopes.
No caso específico de Orminda, porém, o conjunto apresentado pela investigação desenha uma atuação própria.
A acusação atribui à matriarca o recebimento e guarda de valores, intermediação entre integrantes presos e soltos, transmissão de mensagens, contato com lideranças da facção e envolvimento em episódio relacionado à negociação de arma de fogo.
As cartas em que presos a chamam de “mãe”, somadas às mensagens trocadas com Rhavenna e aos registros envolvendo “Batman”, Renildo e “Sandro Louco”, são usadas pelas autoridades para sustentar que sua presença no grupo investigado não seria meramente familiar ou circunstancial.
As acusações ainda serão analisadas pelo Judiciário, e os denunciados têm direito de apresentar defesa e contestar os elementos reunidos na investigação.
Fonte Olhar Direto

