Maykon Milas
Mesmo após cumprir a maior parte de suas penas e responder em liberdade, o empresário João Arcanjo Ribeiro — personagem central de alguns dos casos criminais mais emblemáticos de Mato Grosso desde a década de 1990 — voltou a ocupar espaço no debate público. Agora idoso e longe dos holofotes que marcaram sua trajetória, o ex-“Comendador” tenta reconstruir a vida, mas seus advogados afirmam que ele ainda enfrenta o que chamam de “excessos de fiscalização” e tentativas de mantê-lo sob suspeita permanente, mesmo após decisões judiciais favoráveis.
Condenado por crimes como lavagem de dinheiro e organização criminosa, Arcanjo passou anos no sistema penitenciário e teve progressão de regime conforme prevê a legislação penal brasileira. Para sua defesa, no entanto, o estigma do passado segue determinando a forma como instituições o tratam. Advogados afirmam que iniciativas judiciais e investigações recentes não se baseiam em fatos novos e alimentam uma “visão cristalizada” sobre o empresário. Eles também apontam que pedidos de revogação de medidas restritivas ou de arquivamentos demorariam mais do que o padrão, reforçando uma sensação de vigilância constante. “Cumprir a pena é o que a lei exige. Após isso, qualquer cidadão deve ter garantidos seus direitos e sua presunção de inocência. O que vemos é uma insistência em manter João Arcanjo preso ao seu passado”, argumentou um dos representantes legais.
Do outro lado, integrantes do Ministério Público e do Judiciário rebatem a tese de perseguição. Para as autoridades, o rigor aplicado nos casos envolvendo Arcanjo segue parâmetros legais e se justifica pelo histórico criminal e pela complexidade das investigações às quais ele respondeu ao longo de décadas. Segundo fontes do sistema de Justiça, novas apurações só são abertas quando surgem indícios concretos, e não por motivação pessoal ou política. “Não se trata de perseguição, mas de cumprimento do dever institucional. O passado não pode ser ignorado, e a lei prevê tratamento diferenciado a réus reincidentes ou envolvidos em crimes de alta complexidade”, afirmou um servidor com experiência na área criminal.
Na opinião pública, João Arcanjo continua sendo uma figura que divide percepções. Parte da sociedade defende que ele já foi punido e deve ter o direito de seguir sua vida sem interferências indevidas. Outra parte considera que seu histórico justifica atenção redobrada das autoridades e mecanismos de controle mais rígidos. Especialistas avaliam que o caso expõe um debate recorrente no sistema penal brasileiro: até que ponto a ressocialização é possível, como garantir direitos individuais após o cumprimento da pena e qual é o limite do rigor estatal para preservar a segurança pública sem ultrapassar garantias legais.

