A ausência de uma manifestação do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, após a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), neste domingo (25), chamou a atenção de analistas internacionais. Até a manhã desta segunda-feira (26), o governo americano ainda não havia reconhecido publicamente a vitória do petista, diferentemente de outros líderes mundiais que já parabenizaram o presidente brasileiro.
Lula venceu o segundo turno com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% de Flávio Bolsonaro (PL). O resultado foi oficializado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) na noite de domingo.
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A demora de Trump contrasta com o comportamento adotado pelos Estados Unidos em eleições presidenciais anteriores. Em 2018, por exemplo, o próprio republicano telefonou para Jair Bolsonaro ainda na noite da votação. Já em 2022, o então presidente Joe Biden reconheceu rapidamente a vitória de Lula.
Para Christopher Sabatini, pesquisador sênior para América Latina do centro de estudos Chatham House, em Londres, a postura de Trump pode estar relacionada ao resultado desfavorável a um aliado político.
“Sim, é muito significativo. Ele deveria ter sido o primeiro”, declarou o especialista à BBC News Brasil.
Segundo Sabatini, o presidente americano demonstrou proximidade com a família Bolsonaro durante a campanha eleitoral e poderia esperar uma vitória de Flávio, ampliando a presença de governos alinhados a Washington na América Latina.
O pesquisador lembrou que Trump chegou a afirmar que havia contribuído para a eleição de nove presidentes latino-americanos.
“Acho que ele imaginava que este seria o décimo e o maior prêmio”, avaliou.
A aproximação entre Trump e os filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro também foi destacada pelo analista. Em maio, Flávio e Eduardo Bolsonaro participaram de um encontro na Casa Branca, um dia antes de o Departamento de Estado anunciar a designação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas.
Expectativas do governo americano
Anthony Pereira, diretor executivo do Centro para Estudos Latino-Americanos da Universidade Tulane, nos Estados Unidos, considera que uma vitória de Flávio Bolsonaro poderia facilitar a aproximação brasileira com iniciativas defendidas por Trump.
Entre elas está o Escudo das Américas, uma coalizão de segurança criada pelo governo americano para combater o narcotráfico e organizações criminosas na região. O Brasil não aderiu à iniciativa.
Pereira também apontou que Washington tinha expectativas de ampliar a cooperação em setores estratégicos, incluindo a exploração de minerais críticos.
Na avaliação do especialista, a permanência de Lula na Presidência representa um resultado diferente daquele esperado por integrantes do governo americano.
Apesar disso, Pereira considera que as relações comerciais entre os dois países devem prevalecer sobre eventuais divergências ideológicas.
“Não vejo uma possibilidade realista de a Casa Branca reverter o resultado da eleição, então a tendência seria negociar com o governo que existe no Brasil”, afirmou.
Lula defende independência nas relações exteriores
Durante o discurso após a vitória, Lula voltou a defender uma política externa independente e afirmou que o Brasil não deve adotar uma postura de submissão diante de outras potências.
O presidente também criticou interferências externas no debate político brasileiro, embora não tenha citado diretamente o governo americano.
Para os analistas, o posicionamento adotado por Lula nos próximos meses será determinante para estabelecer os rumos da relação com Washington.
Sabatini avalia que o petista poderá tanto ampliar as críticas à política externa americana quanto buscar uma aproximação diplomática baseada em interesses econômicos.
O especialista também considera que o reconhecimento da vitória por Trump poderá influenciar o comportamento político dos aliados de Flávio Bolsonaro diante do resultado eleitoral.
Relações comerciais podem favorecer diálogo
Apesar das diferenças políticas, Brasil e Estados Unidos mantêm importantes relações econômicas, com empresas que possuem operações nos dois países.
Na avaliação de Pereira, esses interesses devem contribuir para a manutenção do diálogo entre os governos.
O especialista acredita que Trump poderá reconhecer o resultado e buscar negociações com Lula, mesmo diante das divergências entre as duas administrações.
O silêncio do presidente americano, entretanto, permanece sem uma explicação oficial. Até a manhã desta segunda-feira, não havia confirmação de quando a Casa Branca faria uma manifestação sobre a eleição brasileira.

