O Brasil colheu a maior safra de grãos de sua história, com 361,7 milhões de toneladas, e também registrou uma safra recorde de soja, com 180,4 milhões de toneladas. Os números, porém, não significam que os produtores tenham alcançado uma renda igualmente alta. A produção mostra quantas toneladas saíram das lavouras, mas não quanto sobrou depois do pagamento dos custos, dos financiamentos e das dívidas acumuladas em ciclos anteriores.
Os indicadores de crédito revelam a dimensão do problema. Em junho de 2026, o crédito rural acumulava R$ 48 bilhões em operações inadimplentes, ante aproximadamente R$ 2 bilhões cinco anos antes. No mesmo período, a taxa de inadimplência passou de 0,54% para 5,63%. Segundo levantamento realizado a partir do Sistema de Informações de Crédito do Banco Central, o saldo em atraso cresceu cerca de 2.300% em cinco anos.
O avanço chama atenção porque o crédito rural historicamente registrava níveis baixos de inadimplência. O que antes era uma parcela marginal da carteira passou a representar dezenas de bilhões de reais em compromissos vencidos.
Em Mato Grosso, a deterioração também aparece no chamado crédito rural problemático, que atingiu R$ 21,8 bilhões, o equivalente a 18,2% da carteira estadual. Em 2022, essa proporção era de apenas 2,08%. Em quatro anos, a participação das operações sob dificuldade aumentou quase nove vezes.
A safra recorde, por si só, não resolve essa situação. Parte dos produtores chega ao novo ciclo carregando obrigações acumuladas em safras anteriores, após perdas de produtividade, queda nos preços, aumento dos custos e sucessivas renegociações. Quando a receita não cobre as dívidas que vencem, o produtor pode prorrogar ou renegociar os pagamentos, ou recorrer a novos empréstimos. Com a incidência de juros sobre o passivo acumulado, uma parcela cada vez maior da renda futura fica comprometida com obrigações anteriores.
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As projeções para a próxima safra em Mato Grosso também indicam que a recomposição da capacidade de pagamento pode ser difícil. O Custo Total da soja para 2026/27 está estimado em R$ 8.171,41 por hectare, alta de 16,69% em relação à safra anterior. Ao mesmo tempo, o Lajida (Lucro Antes de Juros, Impostos, Depreciação e Amortização) projetado caiu para R$ 1.069,47 por hectare, uma retração de 35,05%, enquanto a produtividade estimada recuou 5,43%.
Por isso, a questão não é apenas se a nova lavoura conseguirá cobrir seus custos de produção. É também se o valor que restar será suficiente para pagar as dívidas trazidas dos ciclos anteriores. A conta da safra atual carrega compromissos das safras passadas. Assim, uma atividade pode continuar produzindo em grande escala e, ainda assim, perder capacidade de pagamento.
Quando o caixa não cobre as obrigações que vencem, o produtor pode entrar em um processo de deterioração da renda e do patrimônio. A produção cresce, mas a renda disponível diminui à medida que as dívidas se acumulam e comprometem os resultados dos ciclos seguintes.
No campo, faturamento não é lucro. E uma safra recorde não garante, por si só, renda recorde para quem produz.

