Por Laudemir Moreira Nogueira
Há um vício recorrente na gestão pública: tratar números como suficientes, mesmo quando descolados do contexto. Na oncologia, isso distorce a análise. Avaliar hospitais oncológicos com métricas de unidades generalistas não é apenas um equívoco técnico, impacta diretamente o atendimento.
O hospital oncológico opera sob lógica própria. O tempo não se mede apenas em dias de internação, mas em cirurgias, ciclos de quimioterapia e radioterapia, resposta ao tratamento e sobrevida. O paciente não entra e sai; retorna, reavalia e depende de cuidado contínuo.
Indicadores como taxa de ocupação, tempo médio de permanência e custo por paciente-dia têm limites quando aplicados sem ajuste. Permanências mais longas podem indicar cuidado adequado. Custos mais elevados refletem terapias avançadas. Menor rotatividade pode significar continuidade do tratamento.
Há também o custo estrutural. Medicamentos de alto valor, terapias-alvo e imunoterapia concentram parcela significativa do orçamento oncológico. Dados do Instituto Nacional de Câncer indicam que grande parte dos pacientes no país ainda inicia o tratamento em estágios avançados da doença, o que eleva custos e reduz as chances de desfechos favoráveis.
O problema se amplia quando essa leitura orienta decisões administrativas. Sem critérios específicos, há pressão sobre o financiamento e risco de desassistência.
Outro ponto central é o acesso. A legislação brasileira estabelece que o início do tratamento oncológico deve ocorrer em até 60 dias após o diagnóstico. Na prática, esse prazo nem sempre é cumprido. Em estados extensos como Mato Grosso, com longas distâncias entre municípios e centros especializados, o desafio é ainda maior. Pacientes percorrem centenas de quilômetros em busca de atendimento.
Modelos de regulação rígidos, sem flexibilidade para casos suspeitos de câncer, tendem a agravar esse cenário. O resultado é conhecido: chegada tardia ao serviço especializado, muitas vezes com a doença em estágio avançado.
Não se trata de dispensar a regulação, mas de ajustá-la. A oncologia exige agilidade. Suspeitas precisam encontrar portas abertas e fluxos resolutivos.
O caminho é objetivo. Adotar indicadores compatíveis com a especialidade, como tempo para início do tratamento, adesão a protocolos, desfechos clínicos e qualificar a análise dos contratos. Em paralelo, é necessário revisar o modelo de acesso, garantindo maior celeridade para casos suspeitos.
Hospitais oncológicos cumprem papel estratégico no sistema de saúde. São referência para diagnóstico e tratamento de alta complexidade. Avaliá-los com parâmetros inadequados compromete não apenas a gestão, mas a assistência.
Na oncologia, tempo não é um indicador secundário. É determinante.
*Laudemir Moreira Nogueira é advogado e diretor presidente do Hospital de Câncer de Mato Grosso (HCanMT).
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