Ana Carolina Guerra
A disputa interna pelo comando do campo bolsonarista ganhou contornos públicos nos últimos dias após o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) criticar a postura da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro e do deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) em relação à pré-candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ao Palácio do Planalto.
Em entrevista ao SBT News na semana passada, Eduardo afirmou não ter visto manifestações claras de apoio de Michelle ao irmão. Segundo ele, aliados que se elegeram sob a influência política do ex-presidente Jair Bolsonaro deveriam ter se engajado de forma mais explícita na consolidação do nome de Flávio. Ao mencionar que Michelle compartilha com frequência conteúdos de Nikolas, mas não publicações em favor do senador, o parlamentar trouxe para o centro do debate a discussão sobre unidade e estratégia dentro do grupo conservador.
A reação foi imediata. Após visitar Jair Bolsonaro no Complexo da Papuda, onde o ex-presidente cumpre pena, Nikolas declarou à imprensa que Eduardo “não está bem” e afirmou que não pretende alimentar divergências internas. Disse ainda que o foco deve estar no país e defendeu Michelle, pedindo que ela seja respeitada diante do momento pessoal e familiar que enfrenta. Para o deputado mineiro, as críticas revelam mais sobre quem as faz do que sobre seus alvos.
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O episódio ampliou a tensão entre lideranças do PL e mobilizou a militância nas redes sociais. Parte dos apoiadores passou a cobrar Michelle por não promover de forma mais enfática a pré-candidatura de Flávio e por compartilhar conteúdos do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), com críticas ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Para alguns setores da base, a visibilidade dada a Tarcísio poderia indicar distanciamento em relação ao senador.
Michelle respondeu às críticas em comentário público, afirmando que seu perfil é privado e que as escolhas de conteúdo são pessoais, acrescentando que seguidores insatisfeitos estariam livres para deixar a página.
A ex-primeira-dama ocupa posição estratégica no cenário conservador. Além de manter forte apelo junto ao eleitorado feminino e evangélico, já foi mencionada como possível integrante de chapa em uma eventual composição liderada por Tarcísio. Flávio, por sua vez, tem adotado discurso de unidade, defendendo que os conservadores permaneçam coesos para enfrentar o PT nas eleições de outubro.
O ambiente de tensão ocorre enquanto Jair Bolsonaro segue influenciando articulações políticas mesmo preso. Parlamentares mantêm visitas frequentes ao ex-presidente, e discussões sobre listas de candidatos ao Senado e aos governos estaduais continuam sendo associadas a sua orientação política. Em publicação na rede X, o vereador Carlos Bolsonaro (PL-RJ) mencionou “desencontro” interno no partido e indicou que o pai estaria sendo isolado de decisões estratégicas. Ele compartilhou declaração do presidente do PL, Valdemar Costa Neto, segundo a qual a definição de candidaturas a governador cabe ao partido e que sugestões atribuídas a Bolsonaro seriam apenas opiniões.
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Em outra postagem, Carlos afirmou que o ex-presidente prepara uma lista de pré-candidatos para diferentes cargos, reforçando que ainda exerce influência nas definições eleitorais.
O embate público entre Eduardo, Michelle e Nikolas expôs divergências sobre protagonismo, comunicação e estratégia dentro do bolsonarismo. O que antes era tratado nos bastidores partidários e nas redes sociais da militância tornou-se um debate aberto, revelando disputas internas em um momento decisivo para a reorganização da direita no cenário nacional.

