Parque em Viña del Mar abrigava muitas espécies únicas, mas foi atingido pelo fogo devastador que matou mais de 100 pessoas
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Na tarde de sexta-feira, dia três de fevereiro, centenas de pessoas passeavam tranquilamente pelo cenário idílico do jardim botânico nacional do Chile sem saber que a algumas colinas dali, do outro lado da rodovia, um fogaréu destruidor rumava em sua direção
Cristobal Olivares/The New York Times – 04.02.2024
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O perigo logo ficou claro, e os guardas começaram a correr pelo parque de moto, instruindo os visitantes a sair aos gritos. Mas, quando muitos chegaram aos portões, as chamas já tinham se instalado
Cristobal Olivares/The New York Times – 05.02.2024
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“Havia uma fumaça preta pairando sobre tudo, então nos deitamos na grama, perto da saída, do lado de dentro. Um dos meus homens virou para mim e perguntou se íamos morrer”, contou Alejandro Peirano, diretor do parque, na manhã de segunda-feira
Cristobal Olivares/The New York Times – 05.02.2024
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Longe dali, três patrulheiros tentavam resgatar a colega Patricia Araya, de 60 anos, cuidadora residente da estufa que estava com os dois netos e a mãe de 92 anos em casa; chegaram ao portão, mas o fogo se alastrava
Cristobal Olivares/The New York Times – 04.02.2024
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“Eu já sentia o calorão nas costas, mas só depois percebi que eram pedaços de casca de árvore queimados que caíam sobre mim. Tivemos de nos afastar. A única coisa que o corpo quer é fugir do inferno”, revelou Freddy Sánchez, de 50 anos, na segunda-feira, de guarda à entrada do parque
Cristobal Olivares/The New York Times – 04.02.2024
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Os que se agruparam no gramado frontal sobreviveram – o que foi um verdadeiro milagre, já que 98 por cento dos mais de 400 hectares foram destruídos, mas Araya, a mãe e os dois netos engrossaram a lista de 122 mortes confirmadas em um dos incêndios florestais mais letais da história moderna
Cristobal Olivares/The New York Times – 05.02.2024
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Na segunda-feira, acompanhadas por cães, as autoridades continuaram as buscas por corpos na área de 107 km² arrasada pelo incêndio que castigou a província de Valparaíso, balneário popular próximo à porção central da costa chilena. Também fizeram um balanço mais amplo da destruição, incluindo pelo menos 15 mil casas e um dos tesouros do Chile: o Jardim Botânico Nacional de Viña del Mar
Cristobal Olivares/The New York Times – 04.02.2024
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Com 107 anos e uma área de quase quatro quilômetros quadrados, é um dos maiores do mundo, além de funcionar como centro de conservação e pesquisa essencial para a região. Os funcionários levaram décadas montando e estudando um jardim diverso, com mais de mil tipos de árvores, incluindo algumas das mais raras do mundo
Cristobal Olivares/The New York Times – 04.02.2024
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Devido à geografia isolada, espremido entre a Cordilheira dos Andes e o Oceano Pacífico, o país abriga muitas espécies de plantas endêmicas, ou seja, que não crescem em nenhum outro lugar
Cristobal Olivares/The New York Times – 04.02.2024
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O jardim era essencial para sua preservação, incluindo muitos cactos raros. Há também plantas medicinais, espécies exóticas originárias da Europa e da Ásia, uma coleção enorme de outras, das remotas Ilhas Juan Fernández, e alguns dos maiores exemplares do mundo de que se tem conhecimento da Sophora toromiro, nativa de Rapa Nui, ou Ilha da Páscoa, atualmente extinta na natureza
Cristobal Olivares/The New York Times – 04.02.2024
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“É uma perda terrível. Anos e anos de pesquisa que tanta gente fez no jardim, cultivando coleções especiais”, lamentou Noelia Alvarez de Roman, especialista para a América Latina da Botanic Gardens Conservation International, rede mundial de jardins botânicos
Cristobal Olivares/The New York Times – 04.02.2024
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Segundo Peirano, não é a primeira vez que o parque é danificado pelo fogo; houve ocorrências em 2013 e 2022, quando cerca de 25 por cento da área foram queimados. “Estamos acostumados. Patrulhamos as áreas mais suscetíveis todos os dias, limpamos e procuramos educar o público, mas esse incêndio foi completamente inesperado. Nunca vimos nada dessa proporção antes”
Cristobal Olivares/The New York Times – 05.02.2024
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O diretor fez questão de frisar que, pior do que qualquer prejuízo físico, a verdadeira tragédia se resume às vidas perdidas
Cristobal Olivares/The New York Times – 05.02.2024
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“Fazia 40 anos que Araya trabalhava no parque, e para esta semana tinha planejado uma cerimônia de renovação dos votos com o companheiro de longa data. Depois iam sair de férias. Na verdade, era sua folga na sexta, e os netos, de um e nove anos, estavam lá para passar o dia com ela”, disse em entrevista à TV
Cristobal Olivares/The New York Times – 04.02.2024
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No mesmo dia, as autoridades reiteraram a tese de que o incêndio possa ter sido provocado. Rodrigo Mundaca, governador da província de Valparaíso, declarou aos repórteres que os especialistas confirmaram que pelo menos um dos maiores focos teve início às 14h da sexta-feira, em quatro pontos diferentes, separados por alguns metros
Cristobal Olivares/The New York Times – 05.02.2024
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“Se acho que foi uma ocorrência espontânea, natural? Não. No dia anterior, os guardas da Patrulha Nacional já tinham apagado um incêndio criminoso. É por isso que digo que foi intencional e espero que os responsáveis sejam identificados”
Cristobal Olivares/The New York Times – 05.02.2024
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Duas pessoas foram presas no domingo, quatro de fevereiro, suspeitas de tentar atear fogo nas proximidades do jardim botânico, mas liberadas logo em seguida por falta de provas suficientes. A polícia anunciou que manterá o toque de recolher noturno durante o período de investigação e recuperação
Cristobal Olivares/The New York Times – 05.02.2024
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Antes da tragédia, as altas temperaturas e a baixa umidade do ar já caracterizavam condições perigosas no país – e o fenômeno climático cíclico El Niño contribuiu para agravar o calor e a estiagem em várias regiões da América do Sul. Além disso, a mudança climática também ajudou a aumentar as temperaturas
Cristobal Olivares/The New York Times – 05.02.2024
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Os ventos fortes de sexta-feira ajudaram a espalhar o fogo mais rapidamente, surpreendendo as autoridades e deixando muita gente presa ao tentar fugir das aldeias nas encostas. Na segunda, os bombeiros já tinham contido boa parte das chamas
Cristobal Olivares/The New York Times – 05.02.2024
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No jardim botânico, a fumaça da floresta de pinheiros queimada ainda pairava no ar, enquanto os operários usavam serra elétrica para partir as árvores caídas e os helicópteros sobrevoavam o espaço carregando imensos contêineres com água
Cristobal Olivares/The New York Times – 04.02.2024
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Peirano, visivelmente abatido, se referia ao jardim carbonizado às suas costas como “tesouro chileno”, mas também tinha certeza de que a floresta ia se recuperar
Cristobal Olivares/The New York Times – 04.02.2024
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“As plantas nativas vão voltar a crescer, mas precisamos de chuva, e ela só vem em maio. Algumas espécies exóticas conseguiram sobreviver ao inferno, da mesma forma que a figueira-de-bengala histórica de 150 anos que ficou em pé em Lahaina, no Havaí, começou a dar brotos semanas depois de a cidade ser destruída pelas chamas”
Cristobal Olivares/The New York Times – 04.02.2024
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Entre as espécies que ficaram vivas, além das Sophora toromiro quase extintas, estão as Ginkgo bilobas do “Jardim da Paz”, composto por plantas que sobreviveram à bomba atômica lançada sobre Hiroshima
Cristobal Olivares/The New York Times – 04.02.2024
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“Tiveram força suficiente para florescer depois do que houve no Japão, e agora terão o dobro da força se superarem o estágio atual, o que significa que driblaram o fogo. As árvores e o que elas representam serão duas vezes mais fortes”, comentou em entrevista à TV na segunda
Cristobal Olivares/The New York Times – 04.02.2024
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